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Objectivo e finalidade

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Sobre o que devem ser as perguntas do questionário e qual o seu objectivo e finalidade para o nosso estudo

Os problemas que dão origem a estudos de inquérito estão na maior parte das vezes formulados em linguagem comum, como por exemplo: “Será que os portugueses apoiam as medidas do governo?”, “Serão os estudantes mais politizados do que os jovens que não estudam?”, “Serão as mulheres mais religiosas do que os homens?” …

Esta forma de colocar as questões a que queremos dar resposta com o nosso estudo não é, contudo, a “linguagem” da investigação. Para podermos investigar questões como aquelas que apresentámos temos que definir com precisão o que se entende com cada um dos conceitos utilizados. Por exemplo, na questão “Serão as mulheres mais religiosas do que os homens?” é necessário que se defina com precisão o que se entende por “ser mais religioso”.

Construtos

Alguns conceitos – como por exemplo “peso”, “altura” ou “idade” –  são relativamente fáceis de definir e podemos encontrar, sem grande esforço, medidas claras, quantificáveis e consensuais que nos ajudam a “operacionalizar” o conceito. No entanto, alguns outros – como, por exemplo, “apoiar”, “religiosidade”, ou “politizado” – , são mais complexos e difíceis de mensurar.  Ao contrário da definição do que é um “peso” ou “altura”, muitos dos conceitos utilizados nos inquéritos de opinião são construções intangíveis (isto é, construtos) que só podem ser medidos de forma indireta: medo, amor, ódio, bonito, excelente, prático, útil, apoiar, simpatizar, religiosidade, politizado, etc., …  são exemplos de construtos intangíveis.

A maioria de nós concorda que o “medo”, o “amor”, o “ódio, a “beleza”, a “simpatia”, a “religiosidade” … existem e que algumas pessoas têm mais medo, amor, ódio, beleza, simpatia, ou são mais religiosas do que outros. A sua medição não é, contudo, tão objectiva e consensual como, por exemplo, a “altura” ou o “peso”, que podem ser feitas com uma fita métrica ou com uma balança.

O primeiro passo para medir um construto  intangível é fazer a sua definição operacional. Ou seja, especificar em que é que consiste,  como se manifesta, de que é composto, como pode ser medido, …

Para concretizar esta fase é frequente termos que proceder a uma revisão da literatura relativa à investigação já feita sobre o tema, para identificar o que se sabe sobre o assunto e como outros investigadores têm tentado definir e medir esse(s) conceito(s).

Se estivermos a tentar medir, por exemplo, a “religiosidade” ficaríamos a saber pela revisão da literatura que Stark e Glock (1968) propõem aquele que será um dos modelos mais divulgados na abordagem da religião e que postula a existência de cinco dimensões na religiosidade: crença, prática, experiência, conhecimento, e consequências.

Com base neste conhecimento saberíamos que se quisermos medir com rigor a religiosidade de alguém devemos olhar obrigatoriamente para cada uma dessas cinco características ou dimensões da religiosidade.

Mas saber isso ainda não é suficiente. Num segundo momento teríamos que saber a que se refere exatamente cada uma dessas dimensões.

Na dimensão crença (sensação de veracidade relativa a uma determinada ideia a despeito de sua procedência ou possibilidade de verificação objetiva), por exemplo, teríamos que identificar quais são as crenças comuns às várias religiões.  Ideias como a de que “existe uma entidade superior que nos criou e que tem poder de determinar a nossa vida”; de que “existe vida depois da morte”; de que “as nossa acções em vida serão punidas ou recompensadas depois da morte”, etc., etc.. são exemplos deste tipo de crenças religiosas.

Já no que se refere à dimensão prática teríamos que saber que tipos de ações e rituais são praticados pelos membros das diferentes religiões. Rituais e práticas associadas a momentos específicos ‑ iniciação à religião,  morte, contacto com o divino, … ‑, ou a ações ‑ missas, procissões, jejuns … ‑, são exemplos do tipo de práticas e rituais comuns às religiões.

(…)

Só depois de concretizada esta pesquisa sobre o que consiste efectivamente cada uma das dimensões do conceito é que estaríamos em condições de saber sobre o que é que o nosso questionário deveria incidir e de que tipo de informação precisávamos de saber em concreto para avaliar o grau de religiosidade da população em estudo.

É ainda frequente que após esta fase se usem painéis de especialistas ou “focus grupos” para tentar aprofundar mais o conhecimento sobre o tema em questão e identificar lacunas na nossa pesquisa bibliográfica. No nosso exemplo, o resultado do levantamento sobre o que é a religiosidade, como se manifesta e como pode ser medida, deveria ser posteriormente analisado por um painel de especialistas que integrasse praticantes e sacerdotes de várias religiões. Eles, mais do que ninguém, poderiam  dizer-nos se há algo de essencial na avaliação da religiosidade (nomeadamente na perspectiva da sua religião) que não esteja identificado no nosso levantamento.

Se estivermos a fazer um estudo que incida sobre construtos de que não temos conhecimentos aprofundados (ou se tivermos dificuldade em encontrar bibliografia sobre o assunto) podemos considerar, como ponto de partida para a sua “operacionalização”, que os comportamento sociais têm, de uma forma geral, pelo menos quatro dimensões:

  • (1) comportamental – os construtos (por exemplo,  o “medo”, o “amor”, o “ódio, a “beleza”, a “simpatia”, a “religiosidade” ou outros) manifestam-se sempre através de comportamentos específicos;
  • (2) crenças, valores e atitudes – existem sempre  crenças, valores e atitudes associadas aos construtos;
  • (3) motivacional/ afectiva/ emocional – existem sempre motivações e/ou outras manifestações de natureza afetiva e/ou emocional dos sujeitos em relação ao conceito;
  • (4) informativa – os construtos estão habitualmente relacionados com informação relevante (nomes, datas, locais, acontecimentos, etc.).

Se não soubermos nada sobre o construto que estamos a estudar podemos começar por tentar operacionaliza-lo identificando como é que o construto se manifesta nestas quatro dimensões.

Medição

Os questionários são utilizados para a recolha deste tipo de informação e, através dela, obter uma medida dos construtos em estudo. Nesta fase  do processo de construção de um questionário –  em que já se operacionalizaram os construtos envolvidos no nosso problema – pretende-se concretizar essa operacionalização feita na etapa anterior,  traduzindo-a em questões/perguntas que vão medir o construto nas suas dimensões e que vão integrar o questionário a usar no estudo.

A opção sobre a inclusão de questões que cobram todas as dimensões do construto ou sobre o número de questões para cada dimensão depende dos objetivos do nosso estudo. No nosso exemplo, uma opção podia ser construir um questionário com seis perguntas sobre cada uma das cinco dimensões de religiosidade. As respostas dadas a essas perguntas seriam posteriormente agregadas para dar uma medida da religiosidade dos sujeitos inquiridos. Poderíamos, no entanto, considerar incluir apenas questões sobre “crenças” e “prática” e excluir as outras dimensões do nosso questionário. Num ou noutro caso, a justificação da nosso opção teria que ser sempre feita com fundamento nos objetivos do trabalho.

O fator crítico desta fase é garantir que as questões elaboradas produzem respostas que reflitam exatamente as opiniões, atitudes, emoções, comportamentos ou conhecimentos dos sujeitos nas dimensões identificadas como relevantes para a compreensão das variáveis que definem o problema.

No caso de estarmos a fazer um questionário para medir a religiosidade, teríamos que começar por identificar questões que avaliam cada uma das dimensões que este conceito envolve – crença, experiência, prática, conhecimento e consequências. Simultaneamente teríamos de identificar para cada questão quais as possibilidades de resposta (por exemplo, as respostas às questões poderiam ser dadas numa escala com possibilidades de resposta variando entre os valores extremos “totalmente de acordo” e “totalmente em desacordo”, ou numa escala com duas possibilidades de resposta “Sim” e “Não”, ou numa outra que se mostre mais adequada àquilo que se quer medir.

O questionário, para além das questões que incidem nas diferentes dimensões do construto, deverá incluir ainda questões que nos permitam enquadrar os sujeitos respondentes nos grupos da população que, do ponto de vista teórico, podem ser considerados importantes para a compreensão desse construto (por exemplo, idade, sexo, habilitações literárias, ideologia política, etc.).

As respostas a este tipo de questões – que incidem sobre variáveis sócio demográficas –  permitem ao investigador dividir os sujeitos em função de determinado critério – grupos etários, sexo, nível sócio económico, estado civil, profissão, … – para formar sub-grupos e comparar as respostas dadas pelos sujeitos desses grupos a outras questões do questionário com o objetivo de verificar se há diferenças estatisticamente significativas entre eles.

As variáveis sócio demográficas a considerar dependem da natureza do construto e dos objetivos do estudo. Se num determinado estudo for relevante saber se há diferenças entre homens e mulheres então deverá haver uma questão que permita aos sujeitos assinalar se são do sexo masculino ou feminino. Da mesma forma, se for importante saber qual a região de residência, a idade, a religião ou a ideologia política, teremos de incluir questões que permitam aio investigador identificar os grupos a que pertencem os sujeitos. A identificação das variáveis sócio demográficas relevantes para o nosso estudo faz-se em função dos objetivos do estudo e pela análise da bibliografia e de estudos prévios já realizados nessa área e/ou pela consulta a peritos e especialistas no assunto.

Não nos devemos esquecer que o questionário se destina a recolher a informação de que necessitamos para responder com precisão e detalhe à nossa pergunta inicial. Não nos interessa fazer perguntas por fazer. Todas as questões a incluir no questionário devem ter um objetivo específico para o nosso trabalho.

Após a definição do construto e suas dimensões e elaboração de questões para medir cada uma delas, é fortemente recomendado que se faça um estudo prévio com o objetivo de assegurar que as questões medem exatamente aquilo a que se destinam a medir, isto é, que produzem uma medida fiel e válida do nosso construto.

A qualidade do processo de operacionalização dos construtos, de definição das medidas e da construção das questões que iremos usar mede-se através da Fidelidade (reliability) e Validade do questionário.

Fidelidade (reliability)

A fidelidade de um questionário está relacionada com a consistência nas respostas obtidas quando o seu preenchimento é repetido, ou seja, com o grau em que um questionário produz os mesmos resultados em ensaios repetidos.

A fidelidade do questionário é especialmente importante se o objetivo do nosso estudo for o de detetar e medir mudanças de opinião, atitudes, valores, comportamentos ou outras ao longo de um determinado período de tempo: por exemplo, durante uma campanha eleitoral ou uma campanha publicitária. Nestes casos é crucial termos a certeza de que as alterações que se registam nas respostas dos sujeitos ao longo do tempo se devem às mudanças que se verificaram, de facto, nas suas opiniões, comportamentos, atitudes, valores, etc., e que não são devidas a imperfeições  do instrumento de medida utilizado.

Da mesma forma que alguém que está a fazer dieta e controla o seu peso através de uma balança tem de ter confiança que as alterações que se verificam no peso registado pela balança se devem a alterações no seu verdadeiro peso e não ao facto de a balança estar desafinada, também o investigador deve ter a certeza que as alterações que o questionário regista nas opiniões, comportamento, valores, atitudes dos sujeitos se devem ao facto de estas se terem efetivamente alterado e não ao facto de o questionário estar “desafinado” .

Validade

O facto de uma medida ter fidelidade não significa que seja válida.  Se tivermos uma balança fiável, ou seja, que mede exatamente as alterações que se verificam no peso ao longo do tempo em consequência da nossa dieta, mas que o faz sempre adicionando ao peso real mais 5 quilos, isso quer dizer que apesar de fiável (ou seja deteta corretamente as alterações verificadas quando elas existem) a medida do peso obtida com essa balança não é válida, uma vez que pesamos, de facto, menos 5 quilos do que aquilo que ela marca, ou seja, essa balança avalia incorretamente o nosso peso.

A validade reflete o grau em que o instrumento mede o que pretende medir.

Por exemplo, um questionário para avaliar o comportamento dos consumidores em relação a um produto que vai ser lançado no mercado é válido se os resultados obtidos estiverem diretamente relacionados com o comportamento efetivo dos consumidores em relação a esse produto. Um questionário construído para avaliar o comportamento de voto numa determinada eleição (o que não é necessariamente o mesmo que uma sondagem) é válido se os seus resultados forem coincidentes com os resultados eleitorais.

O exemplo reproduzido abaixo (retirado de : http://www.socialresearchmethods.net/kb/relandval.php) ilustra bem o que é a Fidelidade (reliability) e Validade e quais as relações entre estes dois conceitos, fazendo uma analogia com um alvo.

“O centro do alvo representa o conceito que se pretende medir. Cada resultado obtido com a passagem do questionário é representado a azul e corresponde a um tiro no alvo. Se conseguirmos medir o conceito de forma exata acertamos no centro do alvo. Quando a medição não é exata isso significa que falhamos o centro do alvo. Quanto menos exata for a resposta, mais longe estará do centro  e quanto menos fiel for mais dispersos serão os tiros.

No primeiro alvo (situação em que existe fidelidade e não existe validade) os tiros acertam no alvo de forma consistente (o questionário tem fidelidade), mas falham sempre o centro do alvo (o questionário não mede o que é suposto medir). Isto é, estamos  a medir de forma consistente e sistemática um valor errado. Esta medida é fiel mas não é válida (ou seja, é consistente, mas errada).

No segundo alvo, temos tiros que estão aleatoriamente espalhados por todo o alvo. Raramente acertamos no centro do alvo, mas a média dos tiros permite-nos obter um resultado válido para o grupo (embora não muito correto para cada um dos indivíduos). Neste caso, temos uma estimativa de grupo válida, mas as respostas são inconsistentes. Aqui podemos ver claramente que a fidelidade está diretamente relacionada com a variabilidade.

O terceiro alvo mostra um caso onde tiros estão espalhados por todo o alvo e estamos constantemente a falhar o centro. Neste caso, a nossa medida não é nem fiel, nem válida.

Finalmente, no quarto alvo vemos o cenário “Robin Hood”  - acertamos sempre no centro do alvo. A medida é fiel e válida (aposto que nunca antes pensou em Robin Hood nestes termos).”

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