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* Modelo psicossocial

O texto que se reproduz abaixo foi adaptado de: Antunes, R. J. S. (2008). Identificação partidária e comportamento eleitoral: Factores estruturais, atitudes e mudanças no sentido de voto. Coimbra: Universidade de Coimbra [tese de doutoramento] (pp. 33-42) e de Antunes, R.J.S. (2010). Theoretical models of voting behavior. Exedra, 4, 145-170.

O modelo psicossocial tem a sua origem nos estudos conduzidos pelo Survey Research Centre da Universidade de Michigan durante as eleições presidenciais americanas de 1948, cujos resultados foram analisados por Campbell e Kahn (1952) em The People Elect a President; nas eleições de 1952, cujo relatório foi apresentado por Campbell, Gurin e Miller (1954) em The Voter Decides; e nas eleições de 1956, em que os resultados, conjugados com os obtidos nas investigações anteriores, deram origem ao livro The American Voter, da autoria de Campbell, Converse, Miller e Stokes (1960). Estes trabalhos marcam o início de uma longa série de estudos conduzidos pelo Survey Research Centre e, mais recentemente, pelo Center of Political Studies da Universidade de Michigan, que se prolongam até aos nossos dias, embora actualmente se enquadrem no American National Electoral Studies (ANES), investigações que envolvem uma maior variedade de instituições, mantendo, no entanto, a base teórica inicial. Os questionários e as bases de dados destas investigações são elementos de referência na maioria dos estudos eleitorais realizados nos Estados Unidos da América.

Identificação partidária

O conceito central deste modelo do comportamento eleitoral é o de identificação partidária, que é concebida como uma afinidade psicológica, estável e duradoura em relação a um partido político, que não se traduz necessariamente numa ligação concreta, designadamente, inscrição, militância ou votação consistente e sistemática nesse partido:

In characterizing the relation of individual to party as a psychological identification we invoke a concept that has played an important if somewhat varied role in psychological theories of the relation of individual to individual or of individual to group. We use the concept here to characterize the individual’s affective orientation to an important group-object in his environment. Both reference group theory and small-group studies of influence have converged upon the attracting or repelling quality of the group as the generalized dimension most critical in defining the individual-group relationship, and it is this dimension that we will call identification (Campbell, Converse, Miller, & Stokes, 1960, p. 121).

A noção de identificação partidária, introduzida no estudo do comportamento eleitoral por Campbell et al. (1960), foi influenciada pelo conceito de grupo de referência (Hyman & Singer, 1968) e tem analogias com a ideia de socialização antecipatória introduzido por Merton e Kitt (1950) para definir as situações em que os sujeitos escolhem um grupo de referência ao qual não pertencem e começavam a agir de acordo com aquilo que percepcionam como sendo as normas desse grupo. De acordo com estes autores, a identificação partidária adquire-se através de um processo de socialização, por influência dos valores e atitudes da família, dos colegas e dos pares, num processo que Miller e Shanks (1996) consideram semelhante àquele que leva os sujeitos a identificarem-se com uma religião. Esta ligação afectiva do sujeito ao “seu” partido político pode concretizar-se com diferentes graus de envolvimento, num processo análogo ao que acontece com a ligação dos sujeitos a uma religião, que se manifesta em moldes tão diferenciadas como os que vão de religioso não praticante a profundamente religioso. Nesta perspectiva,, a identificação partidária é uma forma genuína de identificação social em que “citizens have an enduring sense of what sorts of people belong to various parties and whether they identify with these social groups” (Green, Palmquist, & Schickler, 2002, p. ix).

É importante sublinhar que o modelo também não faz coincidir a identificação partidária com o sentido de voto do eleitor. Esta separação entre a natureza psicológica da identificação partidária e a natureza objectiva e comportamental do voto reflecte-se, em termos metodológicos, na opção de não medir esta variável a partir do voto concreto do sujeito, numa ou em várias eleições, mas através de uma questão que solicita o seu auto-posicionamento: “Generally speaking, do you think of yourself as a Republican, a Democrat, an Independent, or what?“, seguida de outra onde se solicita que qualifique a força dessa identificação: “Would you call yourself a strong (Republican, Democrat) or a not very strong (Republican, Democrat)?”. Àqueles que se classificam a si próprios como Independentes é ainda perguntado se, apesar da sua posição independente, se consideram próximos de algum dos partidos “Do you think of yourself as closer to the Republican or Democratic Party (Campbell, Converse, Miller, & Stokes, 1960, p. 122).

Nesta perspectiva, a identificação partidária não é vista como a variável que nos diz de forma directa e inequívoca qual a opção de voto de um sujeito. Campbell et al. (1960) descrevem a identificação partidária como um filtro perceptivo através do qual os eleitores valorizam aquilo que é favorável à orientação do seu partido e ignoram ou desvalorizam aquilo que lhe é desfavorável. Tendo em consideração que a vida política nas sociedades democráticas se centra quase exclusivamente nos partidos e considerando ainda que a avaliação das propostas políticas exige, na maior parte das vezes, o domínio de conhecimento e informação que os cidadãos não têm, a identificação partidária torna-se, então, uma variável central na vivência política dos sujeitos funcionando como um instrumento de “leitura” das propostas eleitorais e dos candidatos.

O funil de causalidade

O modelo explicativo das relações entre as variáveis envolvidas na definição do comportamento eleitoral é designado por funil de causalidade. Esta metáfora representa a cadeia de acontecimentos que contribuem para o voto dos sujeitos, distinguindo factores distais (factores históricos e socioeconómicos, valores e atitudes e grupos de pertença) e factores proximais (temas, candidatos, campanha eleitoral, situação política e económica, acção do governo, influência dos amigos). Na entrada do funil estão as características sociológicas, sociais e familiares que influenciam, todas elas, o elemento seguinte desta sequência que é a identificação partidária. A identificação partidária tem, por sua vez, um papel decisivo na avaliação dos candidatos, dos temas, dos incidentes da campanha eleitoral que são relatados nos meios de comunicação social e das conversas que os eleitores mantêm com familiares e amigos sobre a eleição. Na saída deste funil está o voto. Este esquema clarifica o papel central que os autores atribuem à identificação partidária como resultado da conjugação dos factores disposicionais de longo prazo e como factor moderador do efeito dos factores circunstanciais de curto-prazo no comportamento eleitoral.

To think of a funnel in this way greatly enlarges our explanatory chore, for in the ideal case we want to take measurements that refer to states not at one cross section alone, but at a great number. Each cross section contains all the elements that will successfully predict the next, and so on, until we have arrived at the final act (Campbell et al., 1960).

No entanto, embora o modelo englobe todos estes factores, ele concentra a sua atenção na relação da identificação partidária com os partidos, candidatos e temas e menos nas características sociais e nos sistemas de comunicação (Niemi & Weisberg, 2001).

Factores proximais e distais

Do modelo de causalidade exposto anteriormente resulta que são as alterações nos factores de longo prazo que podem levar a mudanças na identificação partidária dos eleitores. De uma forma geral os factores considerados pelo modelo são aqueles que as abordagens sociológicas conceptualizam como determinantes do comportamento eleitoral. De acordo com Campbell et al. (1960) as mudanças na identificação partidária são raras e ocorrem como reacções a acontecimentos de grande impacte. Os resultados dos estudos sugerem que as modificações na identificação partidária ocorrem ao nível individual quando se verificam ajustamentos na inserção social dos sujeitos (e.g., ingresso numa instituição de ensino superior, casamento, mudança de área de residência, mudança de emprego, etc.), ou quando ocorrem mudanças mais vastas no domínio da organização social e política, (e.g., o fim do regime fascista em Portugal, a entrada na União Europeia, o fim da União Soviética, etc.). Como facilmente se entende, em ambos os casos estas mudanças são relativamente pouco frequentes e, embora as alterações nos grupos de inserção social dos indivíduos ocorram em maior número e com muito mais assiduidade, o efeito na alteração da identificação partidária dos sujeitos é mais rápido e tem maior impacto eleitoral quando essas mudanças ocorrem na estrutura política e/ou social, como foi, por exemplo, a repercussão do fim de União Soviética na expressão eleitoral dos partidos comunistas do sul da Europa.

Se as mudanças nos factores sociais de longo prazo podem produzir alterações na identificação partidária, já os factores de curto prazo são vistos como sendo apenas capazes de alterar a opção eleitoral dos sujeitos numa dada eleição, sem afectar a sua identificação partidária (Campbell, Converse, Miller, & Stokes, 1960; Green & Palmquist, 1990). A relação entre esta variável e os factores de curto prazo concretiza-se através de atitudes em relação às propostas políticas, aos candidatos e aos benefícios do grupo (Harrop & Miller, 1987). No entanto, embora a identificação partidária dos eleitores influencie a forma como eles percepcionam e valorizam estas variáveis conjunturais, é também possível que as propostas, o discurso ou os candidatos sejam de tal modo contra as expectativas, valores ou interesses dos sujeitos, que essa situação não seja susceptível de ser moldada por esse filtro perceptivo e leve os sujeitos a não votar ou mesmo a votar num outro partido. De acordo com os pressupostos do modelo, esta situação não afectaria a identificação partidária do sujeito que continuaria, apesar dessa deslealdade circunstancial, a manter a sua identidade partidária anterior.

O papel da identificação partidária tem sido, no entanto, contestado desde a sua formulação nos anos 60, não só com base no argumento da dificuldade da sua adaptação a sistemas eleitorais que não sejam essencialmente bi-partidários, como é o caso da maioria dos países da europa ocidental (Budge, Crewe, & Farlie, 1976) mas, especialmente, com o argumento de que se verifica um enfraquecimento progressivo da ligação dos sujeitos aos partidos políticos, quer nos EUA (Nie, Verba, & Petrocik, 1976; Stanley & Niemi, 1991; Stanley & Niemi, 2000), quer na Europa (Crewe & Denver, 1985; Dalton, 1984; Dalton, 2000; Dalton, Flanagan, & Beck, 1984; Schmitt & Holmberg, 1995), que põe em causa a tese da estabilidade da identificação partidária e aponta para um progressivo desalinhamento dos eleitores em relação aos partidos políticos. O modo como o modelo psicossocial concebe a relação entre os factores de curto-prazo e a identificação partidária é contestado por investigadores que entendem que o modelo de Michigan sobrevaloriza o papel dos factores de longo prazo e das lealdades partidárias (Dalton, Flanagan, & Beck, 1984; Dalton, 2000; Fiorina, 1981; Franklin, Mackie, & Valen, 1992; Kiewiet, 1983; Wattenberg, 1994). De uma forma geral, todas estas críticas ao modelo psicossocial incidem na dificuldade que esta abordagem teórica revela em explicar as razões que levam alguns eleitores que se identificam com um partido ― processo que tem subjacente uma relação de carácter afectivo em que, consequentemente, a lealdade tem importância decisiva ―, a votar noutro partido ou a abster-se de participar numa eleição. Para estes investigadores são os factores proximais que desempenham o papel decisivo no desalinhamento dos eleitores e na consequente volatilidade que consideram que caracteriza as democracias ocidentais desde o início dos anos 60. Nesta perspectiva, os eleitores ajustam a sua ligação aos partidos políticos em função da avaliação que fazem, em cada acto eleitoral, das condições económicas e do modo como os partidos e os seus lideres lidam com elas. A identificação partidária funcionaria, na melhor das hipóteses, como um mero atalho cognitivo ― e não como uma identidade social ―  que permitiria aos eleitores lidar com o excesso de informação necessária para analisar todas as propostas, sem implicar a existência de uma ligação afectiva e emocional desses eleitores a esses partidos políticos.

Estas críticas são, na sua generalidade, apresentadas por autores que defendem que a explicação das alterações nas opções de voto dos eleitores se deve procurar, não através do recurso a uma variável psicossocial, mas considerando factores ligados ao processamento de informação e à racionalidade dos eleitores e do sistema político e eleitoral. Na secção seguinte apresentamos o modelo teórico que esteve na origem destas abordagens (cf. Modelo Económico do Comportamento Eleitoral)

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