Sondagens e Estudos de Opinião

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Erro e inferência

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ESTUDOS ELEITORAIS, COMPORTAMENTO ELEITORAL, SONDAGENS,  VOTO

INFERÊNCIAS

O que se pretende com as sondagens ou estudos de opinião é (1) medir opiniões, atitudes ou comportamentos (2) através de questionários (3) passados a um grupo que se pretende representativo da população que queremos estudar, (4) para generalizar os resultados obtidos com o estudo desta amostra tirando conclusões que se aplicam a toda a população.

Quando analisamos os dados de sondagens e estudos de opinião fazemos dois tipos de inferências:

  • 1ª Inferência: As respostas dadas pelos sujeitos quando respondem a um questionário traduzem as suas opiniões, atitudes e/ou comportamentos ou, dito de outro modo, os questionários são instrumentos fiáveis e válidos para medir opiniões, atitudes e/ou comportamentos.
  • 2ª Inferência: As opiniões, atitudes e/ou comportamentos dos sujeitos que responderam ao questionário são similares às da totalidade da população que queremos estudar, ou, dito de outra forma, se escolhermos as pessoas certas é possível entrevistar apenas um pequeno grupo para ficar a saber quais as opiniões, atitudes e/ou comportamentos de toda uma população.

Estas duas inferências estão associadas a dois factores cruciais numa sondagem ou estudo de opinião: o questionário e a amostra.

O questionário é o instrumento de medida utilizado nos inquéritos. Ao realizar uma sondagem ou estudo de opinião temos de ter a certeza que avaliamos exactamente aquilo que queremos medir e que o fazemos com um instrumento suficientemente consensual e preciso para que os nossos resultados possam ser iguais quando medidos em diferentes ocasiões, possam ser replicados por outros investigadores e, consequentemente, possam ser aceites pela comunidade científica.

Infelizmente (ou talvez não) não existem instrumentos nem unidades de medida padronizados e inquestionáveis para medir as opiniões, atitudes e comportamentos dos sujeitos. Se a medição de uma distância ou de uma temperatura, por exemplo, pode ser feita consensualmente através do recurso a uma fita métrica e a um termómetro, já o mesmo não acontece com as opiniões, atitudes e comportamentos. Embora haja consenso entre a comunidade científica de que este tipo de fenómenos pode ser medido através de questionários, esse consenso já não é tão grande quando tentamos definir esse questionário. Esta característica dos questionários enquanto instrumentos de medida tem por consequência que na escolha ou construção de um questionário para utilizar numa sondagem ou estudo de opinião seja necessário respeitar um conjunto de regras que visam garantir que esse questionário é de facto um bom instrumento para medir aquilo que queremos medir. Na figura 1, que se apresenta abaixo, podemos identificar do lado esquerdo os aspectos críticos da construção e uso de questionários num inquérito (de que falaremos mais à frente).

A amostra é o conjunto de sujeitos entrevistados e está relacionada com a representatividade das conclusões do inquérito, isto é, estabelece os limites para a generalização das conclusões a outros sujeitos que não aqueles que foram especificamente entrevistados no estudo. Para que as conclusões do inquérito possam ser generalizadas para uma população mais vasta, que é o objectivo de qualquer sondagem ou estudo de opinião, é necessário que o grupo de sujeitos entrevistados (amostra) seja representativo da população que queremos estudar. Por exemplo, quando realizamos uma sondagem política sobre intenções de voto numa eleição para a Assembleia da República pretendemos que os resultados obtidos com as entrevistas feitas a um grupo de algumas centenas de sujeitos possam ser generalizados para todos os cerca de 9 milhões de eleitores recenseados em Portugal.

A obtenção de amostras representativas de uma população exige que esta seja definida segundo critérios específicos que garantam que todos os membros da população a estudar tenham a mesma probabilidade (maior do que zero) de vir a ser seleccionados para a amostra. As amostras definidas de acordo com este critério designam-se por amostras probabilísticas. Na figura 1 podemos identificar, do lado direito, os aspectos críticos da definição de uma amostra.

A INVESTIGAÇÃO POR INQUÉRITO NA PERSPECTIVA DO SEU PLANEAMENTO

Na figura 1 apresentam-se as fases críticas de uma investigação por inquérito na perspectiva do seu planeamento, identificando três tarefas principais num inquérito: (1) definir aquilo que é medido e como é medido – Questionário;  (2) definir quem é medido – Amostra; e (3) realizar a análise estatística dos dados recolhidos.

Figura 1: Ciclo de um inquérito na perspectiva do seu planeamento. Adaptado de  Groves, R. M., Fowler, F. J., Couper, M. P., Lepkowski, J. M., Singer, E., & Tourangeau, R. (2004). Survey methodology. Hoboken, N.J.: John Willey & Sons / Capítulo II – Inference and error in surveys (pp. 42)

Questionário

Constructo

Ao iniciar um investigação por inquérito temos uma ou mais questões a que queremos dar resposta. Numa primeira fase essa(s) questão(ões) é (são) definida(s) num nível de abstracção elevado. Estamos numa fase em que lidamos com construtos, isto é,  construções mentais ou sínteses feitas a partir da combinação de vários elementos.

Uma investigação por questionário inicia-se, de uma forma geral, por uma dúvida ou problema do tipo:  “Qual a percentagem de eleitores que aprova as medidas do governo?”, “Quantos eleitores pensam votar no partido X?”, “Qual o nível de religiosidade da população?”, “Será que a população portuguesa está mais pessimista?” etc.. Este tipo de questões, formulada num nível de abstracção que varia consoante as situações, necessita de ser operacionalizada para que se saiba exactamente aquilo que queremos medir. Por exemplo, se o problema que queremos estudar for apresentado como “Qual a percentagem de eleitores que aprova as medidas do governo?”, temos que especificar (1) que medidas do governo é que estão a ser consideradas/avaliadas,  (2) o que é que entendemos por “aprovar” essas medidas, e (3) a quais eleitores é que nos estamos a referir.

É importante que a operacionalização do problema identifique todas as dimensões relevantes de cada conceito envolvido na nossa questão inicial. Por exemplo, se estivermos a fazer um estudo sobre ” Qual o nível de religiosidade da população” teremos que identificar: (1) as componentes do conceito de religiosidade (que, de acordo com Stark & Glock (1968), envolve seis dimensões: crença, experiência, prática, conhecimento e consequências) e especificar a que é que cada uma dessas dimensões se refere concretamente; para além disso, teremos que especificar também (2) o que é que, no âmbito do nosso estudo, se entende por população e quais os subgrupos que nos interessa considerar (por exemplo, área de residência, idade, sexo, habilitações literárias, ideologia politica, etc. etc.); será ainda importante que se clarifique (3) o que se entende por nível e como é que o vamos quantificar. Para fazer esta operacionalização, para além da pesquisa bibliográfica, recorre-se com frequência ao uso de grupos de especialistas na área que queremos estudar utilizando a metodologia do “focus group“.

Medição

Nesta fase trata-se de concretizar a operacionalização feita na etapa anterior  traduzindo-a em questões que visam medir essas dimensões e que vão integrar o questionário a usar no estudo. O factor crítico desta fase é garantir que as questões elaboradas produzem respostas que reflictam exactamente as opiniões, atitudes ou comportamentos dos sujeitos nas dimensões identificadas como relevantes para a compreensão das variáveis que definem o problema. No caso de estarmos, por exemplo, a construir um questionário para medir a religiosidade da população portuguesa, teríamos que identificar questões que avaliam cada uma das dimensões que este conceito envolve – crença, experiência, prática, conhecimento e consequências -; identificar a(s) possibilidade(s) de resposta que permita(m) identificar o nível de cada um destes factores em cada sujeito (por exemplo, uma escala com 5 possibilidades de resposta variando entre os valores extremos “totalmente de acordo” e “totalmente em desacordo”, ou uma escala com duas possibilidades de resposta “Sim” e “Não”, ou outra que se mostre adequada) e incluir, ainda, um conjunto de questões que nos permitam enquadrar os sujeitos nos grupos da população que, do ponto de vista teórico, podem ser considerados importantes para a compreensão da religiosidade da população (por exemplo, idade, sexo, habilitações literárias, ideologia política, etc. etc.).

Resposta

A relação entre as respostas que o sujeito dá às questões e aquilo que sujeito realmente pensa, sente ou faz depende muito da forma como a questão foi formulada e das possibilidades de resposta que lhe é dada pelo questionário. Há, por exemplo, questões que dificilmente poderão vir a obter uma resposta verdadeira se forem feitas de forma directa: questionar alguém sobre comportamentos desviantes e socialmente reprováveis não é a melhor forma de obter uma resposta verdadeira. Pedir a alguém que diga se concorda com as ideias ou propostas de um partido político dando apenas como possibilidades de resposta um sim ou um não pode não ser a melhor forma de medir a aceitação desse partido.

O envolvimento cognitivo e emocional dos sujeitos com o tema do questionário é uma variável que deve ser cuidadosamente ponderada na medida em que influencia o modo como o respondente interpreta a questão, como avalia as consequências das suas respostas e como mobiliza a informação necessária para lhes responder. De igual forma, as opções de resposta que se dão aos sujeitos entrevistados também devem ser ponderadas, não só na perspectiva do tipo de variável estatística a que darão origem (ordinal, nominal ou contínua) e respectivas consequências em termos das possibilidades de tratamento estatístico posterior, mas, também, do tipo de constrangimentos psicológicos que podem colocar aos respondentes. Por exemplo, responder sim ou não a uma pergunta sobre se nos sentimos ou não realizados pode ser uma tarefa psicologicamente desconfortável. Neste caso poderá ser mais adequado colocar o respondente perante uma escala com várias opções de resposta entre “realizado” e “não realizado”, usando uma escala de likert .

Resposta editada

O preenchimento de um questionário implica ainda que os sujeitos escrevam as respostas ou assinalem correctamente as opções que melhor traduzem a sua posição face ao que é questionado. Nesta fase é necessário garantir que a forma como o questionário (e/ou a folha de respostas) está graficamente construído(a) diminui a probabilidade de erro no seu preenchimento e/ou diminui a necessidade de o investigador ter que  interpretar posteriormente qual foi a resposta realmente dada pelo sujeito. Neste ponto é  importante ter em conta aquilo que a investigação já produziu sobre o funcionamento da percepção humana. Se estivermos a construir um questionário cujas respostas serão lidas por um sistema de leitura óptica, teremos que ter , também, em atenção a forma como funciona este tipo de aplicações informáticas para minimizar as possibilidades de erro na transcrição da resposta dada pelo sujeito para as bases de dados informáticas.

Sujeitos entrevistados

População Alvo

A População Alvo é a população que queremos estudar, isto é, aquela a que se aplicarão as conclusões do nosso estudo. Numa sondagem eleitoral a população alvo são os sujeitos que podem votar nessa eleição, isto é, os eleitores.  Nalguns casos a definição de população pode conter alguma indefinição. Por exemplo, num estudo sobre a religiosidade da população portuguesa a população alvo são os portugueses. No entanto, esta definição da população alvo tem ainda um nível de abstracção elevado. Haveria, por exemplo, que especificar se nos referimos apenas aos portugueses que são filhos de pais portugueses ou se também se consideram os portugueses nacionalizados; se nos referimos aos portugueses que residem em Portugal ou se incluímos também os que residem nos estrangeiro; se nos referimos aos portugueses de todas as idades ou apenas aos que têm mais de 18 anos; etc. É importante que a população alvo seja definida da forma mais objetiva e concreta possível.

Grelha de amostragem

A Grelha de Amostragem refere-se aos membros da população alvo que podem vir a ser efetivamente selecionados para a nossa amostra. Ou seja, a grelha de amostragem inclui os elementos da população que conseguimos identificar como tal. No caso de uma eleição, por exemplo, a grelha de amostragem ideal é o caderno eleitoral aprovado para essa eleição. Num estudo realizado com os alunos de uma escola, a grelha de amostragem ideal são as pautas de matrícula e inscrição desses alunos. No caso do estudo sobre a religiosidade dos portugueses, a grelha de amostragem ideal seria a base de dados da conservatória de registo civil onde estão identificados todos os cidadãos portugueses.

Possuir uma boa grelha de amostragem é, como se depreende, fundamental para a qualidade do nosso estudo. Nem sempre é possível, no entanto, ter aceso a um documento que identifique todos os membros da nossa população-alvo. É comum que se tenha que utilizar uma grelha de amostragem com incorrecções relacionadas com a inclusão de sujeitos que não fazem parte da nossa população ou, inversamente, com a exclusão de sujeitos que fazem parte da população. No caso de sondagens para eleições nacionais, e uma vez que por razões legais não podemos aceder aos cadernos eleitorais oficiais com os dados de identificação e contacto de todos os eleitores, é frequente que se utilize como grelha de amostragem, à falta de melhor alternativa, a lista telefónica nacional. Ora, como todos sabemos nessa lista estão incluídos muitos números de telefone que não pertencem a eleitores, da mesma forma que há eleitores que não têm telefone e que, por essa razão, não estão na lista.

Amostra

A amostra é o conjunto de sujeitos da população alvo que é seleccionado para ser entrevistado. A selecção da amostra é feita a partir dos sujeitos identificados na grelha de amostragem. Nas sondagens e estudos de opinião usam-se amostras probabilísticas, isto é, amostras em que cada um dos sujeitos incluídos na grelha de amostragem tem a mesma probabilidade (diferente de zero) de ser escolhido. As técnicas de amostragem probabilística asseguram, com uma determinada margem de erro, que na amostra estão representados (de forma proporcional à sua representação na população) todos os subgrupos relevantes que constituem a população alvo. Desta forma garante-se que os resultados obtidos com o estudo dos sujeitos da amostra podem ser generalizados, com uma determinada margem de erro, para a população alvo.

Respondentes

Os respondentes são os sujeitos da amostra que quando contactados pelos entrevistadores aceitam participar no estudo e respondem ao questionário. Para além dos sujeitos da amostra que aceitam participar no nosso estudo, há muitos que fazem parte da amostra e são contactados e se recusam a responder e a participar e muitos outros que, estando incluídos na nossa amostra, não se conseguem contactar durante a realização do estudo. Na análise estatística das respostas aos questionários só se consideram as respostas dadas pelos sujeitos que aceitaram participar e completaram as entrevistas. A taxa de resposta afeta a qualidade dos resultados e influencia o “erro total do questionário“, ou seja, a margem de erro associada à generalização dos resultados para a população alvo.

Ajustamentos posteriores

Depois de concluída a fase de recolha de dados através dos questionários é frequente ser necessário fazer ajustamentos aos resultados obtidos com o objectivo de suprir falta de dados ou sub-representação de alguns grupos. É comum, por exemplo, registarem-se questionários onde o respondente não assinalou uma ou mais respostas (missing values). Nestes casos o investigador pode usar determinadas critérios estatísticos para substituir estes valores em falta por um outro valor (média, mediana, moda, ou outro). Também se pode verificar que alguns sub-grupos acabam por ficar sub-representados entre os respondentes e nesses casos também se pode (com as necessárias cautelas)  ponderar as respostas dos elementos desse grupo de forma a torná-lo equivalente à proporção na população alvo. Por exemplo, se o sub-grupo “Sexo Masculino” tem uma representação de apenas 38% entre os respondentes quando na população a sua proporção é de 50%, podemos optar por duplicar as respostas de alguns dos nossos sujeitos do sexo masculino de forma a que se aproximem dos 50% dos respondentes. Sempre que haja ajustamentos posteriores o investigador deve explicitá-los no relatório do estudo e clarificar os critérios usados na sua concretização, uma vez que a utilização destes expedientes metodológicos afecta a representatividade dos resultados e, em consequência, a possibilidade de os generalizar para a população alvo.

Tratamento estatístico

O tratamento estatísticos consiste na organização e tratamento dos dados recolhidos, através de tabelas, gráficos e algumas medidas e na interpretação dos resultados obtidos.

A sequência temporal das fases descritas é a que se apresenta na figura 2.

Figura 2: Sequência temporal de um inquérito. Retirado de  Groves, R. M., Fowler, F. J., Couper, M. P., Lepkowski, J. M., Singer, E., & Tourangeau, R. (2004). Survey methodology. Hoboken, N.J.: John Willey & Sons / Capítulo II – Inference and error in surveys (pp. 47)

ERROS: A INVESTIGAÇÃO POR INQUÉRITO NA PERSPECTIVA DA SUA “QUALIDADE”

Tão ou mais importante do que a consideração das fases da realização de um Inquérito, é fazer uma abordagem que se centre na qualidade do Inquérito e na prevenção dos tipos de erros que a afectam. Na figura 3 estão identificados os tipos de erros afectam a passagem de uma a outra das fases analisadas anteriormente.

Na Perspectiva do “Erro Total do Inquérito  a qualidade do inquérito reside na capacidade do investigador prevenir ou minorar os diferentes tipos de erro que podem ocorrer num inquérito: Validade, erros de medição, erros de processamento (associados à construção e preenchimento do questionário);  erros de cobertura, erros de amostragem, erros de não resposta e erros de ajustamento (associados à definição e selecção da amostra).

Figura 3: Inquérito na perspectiva da sua qualidade. Retirado de  Groves, R. M., Fowler, F. J., Couper, M. P., Lepkowski, J. M., Singer, E., & Tourangeau, R. (2004). Survey methodology. Hoboken, N.J.: John Willey & Sons / Capítulo II – Inference and error in surveys (pp. 48)

Nas secções seguintes analisamos em pormenor cada um destes tipos de erro:


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