Sondagens e Estudos de Opinião

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O que são sondagens?

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ESTUDOS ELEITORAIS, COMPORTAMENTO ELEITORAL, SONDAGENS,  VOTO

As sondagens são um tipo particular de inquérito (survey). O inquérito é o método  universalmente aceite para estudar cientificamente a opinião pública.

O Interviewer’s Manual do Survey Research Center da Universidade de Michigan (1976, pp.1-2)  identifica quatro tipos básicos de inquérito: Sondagem de Opinião Pública (public opinion poll), Estudo de Mercado (market research), Inquérito Estatístico Descritivo (descriptive statistical surveys) e Inquérito de Investigação Social (social research surveys).

Aquilo que se faz numa sondagem ou estudo de opinião é (1) medir opiniões, atitudes ou comportamentos (2) através de questionários (3) passados a um grupo que se pretende representativo da população que queremos estudar, (4) com o objective de tirar conclusões que se aplicam (generalizam) a toda a população.

Este tipo de investigação caracteriza-se por dois aspectos fundamentais: (1) as pessoas entrevistadas são seleccionadas de forma aleatória de entre os membros da população que se pretende estudar, isto é, são utilizadas amostras probabilísticas de uma população-alvo e (2) as perguntas feitas aos entrevistados estão organizadas num questionário. A qualidade dos resultados obtidos com uma sondagem depende essencialmente, portanto, da qualidade da amostra e do questionário usados.

Não é possível seleccionar amostras perfeitas nem construir questionários perfeitos, pelo que os resultados das sondagens são sempre afectados por um conjunto de erros associados quer ao questionário usado quer à amostra utilizada (cf. Erro e Inferência). As fontes de erro de uma sondagem (ou inquérito) estão identificadas e o trabalho dos investigadores consiste em minorar e controlar os seus efeitos. Por sua vez, é importante que os cidadãos conheçam os factores que influenciam a qualidade destes estudos e saibam como interpretar os seus resultados quando são apresentados nos relatórios ou nas fichas técnicas divulgadas na imprensa.

As sondagens são um elemento importante nas campanhas eleitorais. O seu estatuto de estudo científico, aliado à simplicidade dos resultados e à ampla divulgação que obtêm nos meios de comunicação social tem um forte impacto nas candidaturas e nos eleitores. Sendo as eleições um dos pilares dos regimes democráticos é importante que um instrumento com tal poder de influência seja conhecido dos cidadãos, sob pena de puder ser usado para instrumentalizar a sua vontade e desvirtuar um processo essencial para a estabilidade da vida política. Nesta perspectiva, saber ler os resultados de uma sondagem é uma competência fundamental numa sociedade democrática.

Traugott & Lavrakas (1999) no seu livro The Voter’s Guide to Election Polls explicitam as relações existentes entre as eleições, as sondagens e os meios de comunicação social nos EUA [análise que se aplica a todas as democracias]. Reproduzo a seguir (com tradução minha) alguns parágrafos que me parecem ser os mais significativos da “Introdução”:

As eleições têm um lugar especial no jornalismo americano, por várias razões. Uma dessas razão é que vivemos numa democracia e a opinião pública tem um papel central no funcionamento e legitimidade do governo. As eleições e as campanhas eleitorais são o elemento essencial na definição das políticas nos Estados Unidos. Elas representam um momento em que a maioria dos americanos dedica mais tempo do que o normal a pensar em política e assuntos públicos. A eleição dos governantes com um amplo apoio público – e o “mandato” que isso pode envolver – são a base fundamental do nosso sistema de representação.

Ao mesmo tempo, as eleições dão origem a grandes notícias. Envolvem questões importantes e, eventualmente, figuras bem conhecidas. Operam com um sistema de regras com as quais a maioria dos cidadãos estão familiarizados. Ocorrem num calendário fixo, envolvem um conflito substancial e, por último, chegam a um resultado final com a declaração de vencedores e perdedores. Além disso, as campanhas estão cheias de pessoas dispostas e interessadas em falar com os jornalistas e ter a sua versão da história apresentada da melhor forma possível. Por todas estas razões há uma forte relação simbiótica entre jornalistas e candidatos. Eles dependem uns dos outros para o sucesso, mesmo que muitas vezes pareçam estar em conflito uns com os outros.

(…)

Embora políticos e jornalistas tenham tido sempre interesse em conhecer a opinião pública, a aplicação extensiva de técnicas de pesquisa só começou depois da década de 1930, quando os “pais fundadores”, como George Gallup, Elmo Roper, e Crossley Archibald, começaram a recolher e publicar dados de opinião. Os seus esforços só foram possíveis, desde o início, por causa das relações que estabeleceram com os jornais e revistas. Eles precisavam dos meios de comunicação para uma ampla divulgação dos seus resultados e para promover o seu trabalho junto dos clientes. E esses canais de notícias estavam, por sua vez, à procura de conteúdos novos e actuais.

Após a Segunda Guerra Mundial, os progressos nos métodos de amostragem e a crescente procura comercial de estudos de opinião levou a um aumento do número de sondagens. Os próprios candidatos voltaram-se para as pesquisas de opinião pública como parte integrante dos seus esforços de pesquisa, utilizando as informações para complementar as análises dos padrões históricos de votação. Ao mesmo tempo, a divulgação de dados acelerou rapidamente depois de as grandes empresas de comunicação social dos Estados Unidos – as redes televisivas e os grandes diários – começarem a colaborar para a sua própria recolha de dados. Actualmente a cobertura jornalística das campanhas eleitorais é preenchida com os resultados de sondagens, tanto de sondagens que antecedem o dia da eleição como de sondagens à “boca-da-urna”, feitas no próprio dia e nos locais de votação. Os dados das primeiras são usados para explicar e dissecar a campanha e os das segundas são usados ​​para explicar o “significado” do resultado, bem como para projectar os vencedores.

(…)

Há um crescente corpo de literatura cada vez mais interessante em termos das evidências que indicam que as sondagens têm um impacto substancial sobre a imprensa política americana. Os resultados das sondagens têm um impacto sobre a vitalidade e a viabilidade das candidaturas, afectando a sua capacidade de angariar fundos, de organizar uma equipe e de recrutar voluntários. A cobertura noticiosa contendo resultados de sondagens tem um impacto na avaliação que os cidadãos fazem dos candidatos e, mesmo, na sua decisão de ir votar. As sondagens têm claramente um efeito sobre o modo como as campanhas são cobertas pela imprensa, e no modo como repórteres, editores e produtores decidem sobre quais as candidaturas que devem beneficiar de cobertura jornalística e como é que essa cobertura é enquadrada.

Não somos contra as sondagens, pelo contrário, vemos as sondagens eleitorais em termos do seu potencial ainda não alcançado. Há espaço de sobra para uma contribuição substancial para aumentar os níveis de conhecimento e compreensão em relação ao processo político, incluindo o fornecimento de informações sobre como os cidadãos vêem o mundo político e as suas questões e como respondem aos candidatos e às suas campanhas.

Infelizmente essas possibilidades estão em grande parte por realizar devido ao facto de o relato das campanhas ser exclusivamente centrado em “quem está à frente” e “quem está atrás” – numa cobertura jornalística do tipo “corrida de cavalos” a que as sondagens facilmente se prestam. As sondagens também são mais utilizados para apoiar a dinâmica e as declarações de estratégia das campanhas, ao invés de se focarem nas questões que preocupam os eleitores e na sua apreciação daquilo que os candidatos dizem em relação a elas.

A nossa esperança é que se os cidadãos compreenderem melhor como as sondagens são conduzidas, analisadas ​​e relatadas nos meios de comunicação, serão capazes de dar outra utilidade a esta informação. E com conhecimento de causa, serão capazes e quererão exercer pressão sobre as empresas de comunicação social para que alterarem a sua cobertura noticiosa das campanhas e sejam mais sensíveis aos interesses e às necessidades dos seus leitores e espectadores.”(pp. vi-ix).

[Nota: Este livro está disponível em texto integral na base QUESTIA. A Google Books também reproduz partes deste livro)

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